Resumo:
Mariana oferece carona a Sílvia, uma vizinha cega que perdeu o ônibus. Durante o trajeto até o trabalho, a história e a independência da nova conhecida despertam sua admiração e geram uma conexão imediata. Sem o número dela, Mariana decide buscá-la ao fim do expediente e consegue anotar o contato. Movida pela curiosidade, ela encomenda um sistema para imprimir em 3D um modelo do próprio rosto e presenteá-lo a Sílvia. Nas sessões de terapia, reflete sobre o significado do amor e sobre a possibilidade de construir um relacionamento sem pressa ou expectativas sexuais.
Meu estômago roncou de fome. Fui até a cozinha, servi cereal na tigela e abri a geladeira. Porra, esqueci de comprar leite. Joguei o cereal de volta no pote, enxaguei a tigela e fui me vestir no quarto.
Comprei o leite na loja do bairro. Na volta, vi uma moça bonita com bengala branca indo até o ponto de ônibus. Já tinha cruzado com ela várias vezes por aqui, mas nunca tinha prestado atenção de verdade. Agora, reparando melhor, o cabelo castanho curto e bem cortado emoldurava o rosto brilhante, e o corpo magro e elegante chamava atenção mesmo no cinza daquela manhã.
Esta história também existe em espanhol: o site Cuentos Eróticos.
— Merda! — ela gritou quando o ônibus passou acelerado, soltando fumaça.
Fui até ela.
— O que aconteceu?
— Era o 263?
— Era.
— Caralho. O próximo só sai daqui a quinze minutos e ainda vou perder a baldeação. Vou chegar atrasada no trabalho.
— Que saco. Espera. Moro a um quarteirão daqui. Posso te levar de carro.
— Não, não precisa se incomodar.
— Não é incômodo. Não tenho nada pra fazer hoje. Qual é o seu nome?
— Sílvia.
— Eu sou a Mariana. Fica aí que eu já volto.
Primeira carona
Ela ainda tentou protestar enquanto eu corria pro prédio, mas eu já tinha decidido. Guardei o leite na geladeira, peguei as chaves do carro e a bolsa, dei a volta no quarteirão e parei no ponto de ônibus. Desci, levei ela até o carro e depois estacionei num lugar normal.
— Qual é o endereço do seu trabalho?
Ela falou, eu coloquei no GPS.
— Mariana, você não precisa fazer isso. Eu teria dado um jeito.
— Mas ia chegar atrasada, respondi, entrando no trânsito.
Depois de alguns quarteirões, a curiosidade ganhou.
— Você enxerga alguma coisa?
— Só claridade e escuridão, tudo muito borrado, e um pouco de movimento nas bordas.
— Puta merda. Sorte ruim.
— É. Eu ia ser médica, mas quando fiquei cega ainda criança, isso acabou.
Ficamos em silêncio, só com a voz do GPS. Num sinal vermelho, olhei pra ela. A beleza dela me aqueceu. Um suspiro escapou sem eu querer.
— Tá tudo bem? — ela perguntou.
— Tô, tô bem, falei rápido.
Continuamos. Quando o GPS avisou que estávamos chegando, perguntei:
— General Services?
— É aqui.
Estacionei no lugar reservado mais perto da entrada. Só ia ficar alguns minutos e ela era deficiente, então não me preocupei.
— Que horas você começa?
— Nove horas.
— Faltam vinte minutos. A gente pode conversar um pouco?
— Tá bom. Muito obrigada. Você não precisava.
— Não precisava mesmo. Eu quis. E fico feliz de ter feito. Eu admiro você.
— Por quê?
— Porque quando a vida tirou seu sonho, você não ficou se lamentando. Tomou as rédeas e aprendeu a fazer o que podia.
— Bom, é.
— Muita gente não faria isso. Eu passei por uma coisa dois anos atrás e desde então só fico mexendo na minha fotografia. Me sinto perdida perto de você.
— Sinto muito.
— Já superei aquilo, mas tô parada. Você arrumou um emprego.
— Sou só operadora de telemarketing.
— Não é “só”. Você tá fazendo algo produtivo. Eu não. Bom, melhor te deixar ir.
— Obrigada de novo. É a vaga de deficiente da esquerda?
— É.
Eu ia tirar o cinto pra ajudar, mas ela já tinha aberto a porta.
— Eu me viro daqui, disse, batendo a porta, abrindo a bengala com um gesto rápido e indo até a entrada. Olhei ela varrer o caminho com a bengala e senti uma admiração forte. Porra, não peguei o número dela e ela já estava longe demais pra eu correr atrás. Ia ter que voltar pra buscá-la depois do expediente. Calculando, melhor chegar por volta das cinco pra não perder.
Refiz o cinto e voltei pra casa. Sílvia dominou meus pensamentos o dia inteiro. Quem era essa mulher? Por que eu queria ela na minha vida? Será que ela era a resposta pra minha busca por amor? Não era cedo demais pra pensar nisso?
Almocei, arrumei o estúdio, guardei as luzes da sexta à noite com a garota. Depois marquei o alarme do celular pras 4h15 e fui dormir. Sonhei com a gente flutuando nas nuvens. Olhei pra ela e chamei seu nome. Quando ela virou o rosto, estendi a mão pra tocar, mas um vento a afastou. Tentei me aproximar de novo, mas o vento teimoso nos separava. A frustração de não conseguir chegar até ela estragou o sonho.
O alarme me acordou. Levantei, lavei o rosto e me preparei pra buscar Sílvia. O coração batia forte enquanto dirigia. Cheguei um pouco antes das cinco e parei no mesmo lugar reservado. Estava quente, então baixei os vidros antes de desligar o motor. Torci pra não ter perdido ela.
Poucos minutos depois, um cara saindo do prédio me viu e veio até o carro.
— Você não pode parar aqui.
— Eu sei, mas tô esperando a Sílvia.
— Ah, a gatinha. A mãe dela às vezes vem buscar. Ela só sai às 17h30, melhor você ir pra uma vaga de visitante.
Ele apontou mais adiante. Agradeci, mudei o carro e esperei. Um frio na barriga apareceu de repente. E se ela virasse à direita pro ponto de ônibus, indo pro lado contrário? Desci e fui até a entrada do prédio, ficando na sombra. Vi as pessoas saindo em grupos perto das 17h30. As borboletas no estômago aumentaram. Finalmente a vi, levantei e chamei:
— Sílvia!
Ela parou e virou a cabeça.
— Mariana, o que você tá fazendo aqui?
— Vim te buscar.
— Por quê? A gente não combinou nada e você não precisa.
Fiquei ao lado dela.
— Tive que sair da vaga de deficiente. Vem comigo.
— Ah, você realmente não precisa, mas tudo bem. Só continua falando pra eu saber pra onde você tá indo.
— Claro. Tá um calor dos infernos hoje.
— Tá mesmo.
— Tô na primeira vaga de visitante. Quase lá, o carro à direita. Tô andando do seu lado agora.
Ela esticou a mão, achou a maçaneta, dobrou a bengala e entrou. Dei a volta, sentei, liguei o carro e acendi o ar-condicionado no máximo antes de subir os vidros.
— Você realmente não precisava… — ela começou.
— Shh, é o que eu quero fazer. Depois que você saiu hoje de manhã, entrei em pânico quando percebi que não tinha seu número.
— Por que você quer ele?
Respirei fundo duas vezes.
— Você já teve um momento em que conheceu alguém e sentiu uma conexão imediata?
— Não, não posso dizer que tive.
— Hoje eu tive.
— Ah. Comigo?
— Sim, Sílvia. Com você.
— Por quê? Eu não tenho nada de especial.
— Tem sim. Você me intrigou. É tão no controle, e eu sou uma bagunça.
— Eu sou só eu.
— E esse “só eu” é alguém que eu gosto. Isso é permitido?
— Acho que sim. Você também é legal.
Tirei o celular.
— Então, posso ter seu número?
— Tá bom. Normalmente eu não dou pra quem acabei de conhecer, mas vou arriscar com você. Só não me sequestra, hein.
Eu ri.
— Prometo.
Ela sorriu e ditou o número. Mandei um texto rápido pra ela ter o meu. O celular dela vibrou.
— Esse sou eu te mandando mensagem. Você consegue ler textos?
— Consigo, tenho um app que lê em voz alta.
— Mais uma coisa.
— O quê?
— Você é muito bonita.
Ela corou.
— Sério? Nunca consigo comparar minha aparência com a dos outros. Minha mãe diz que sou bonita, mas mãe é mãe, né?
— É.
— Tá, agora qual é o seu endereço?
Ela falou, eu coloquei no GPS.
— A três quarteirões do meu. Legal.
Quando paramos em frente à casa dela, avisei:
— Deu sorte. A vaga bem na frente tá livre, igual nos filmes.
— Obrigada de novo, ela disse, tirando o cinto.
— Sílvia, posso tirar uma foto sua?
— Por quê?
— Eu sorrio quando olho pro seu rosto bonito.
Ela corou de novo.
— Tá bom, vai.
— Ótimo. Vira pra cá.
Tirei várias com o celular, escolhi a melhor e guardei.
— Perfeita.
Enquanto ela descia, falei:
— Espero te ver de novo logo.
— Sério?
— Sério. Até mais.
— Tchau.
O som da bengala dela ecoou enquanto ela passava pelo portão e sumia dentro de casa. Eu seria incapaz sem a visão. Fiquei fascinada com a forma como ela se recusava a deixar os obstáculos da vida impedirem seus planos.
Em casa, a curiosidade me levou pro laptop no estúdio. Pesquisei como as pessoas cegas organizam a vida: uso de bengala, opções de celular e computador. Olhei a foto dela de novo e suspirei. Ia mandar uma selfie, mas não ia servir pra ela. Descobri que pessoas cegas “veem” um rosto tocando. Ia convidar ela a fazer isso da próxima vez que fosse buscá-la. Aí percebi que, embora eu pudesse vê-la quando quisesse, ela não podia me ver a não ser que eu estivesse perto. Tinha algum jeito de contornar isso?
Peguei um copo de Sauvignon gelado na cozinha e voltei pro estúdio pensando nisso. E se eu usasse a impressora 3D? Claro! Podia fazer um modelo do meu rosto pra ela tocar. Mas como tirar uma boa foto pro modelo? Pesquisei mais e vi que, pra um modelo de 360°, o ideal era uma pista circular com uma câmera motorizada dando a volta na pessoa. Perfeito. Encomendei o sistema de pista e a câmera com entrega expressa, pra chegar até quinta. Sílvia ia ficar surpresa por poder “me ver” quando quisesse, e torci pra ela gostar.
Desejo que pulsa
Só então notei que meu corpo estava excitado. Os mamilos latejavam. Minha boceta molhava a calcinha. A ideia de mostrar meu rosto pra Sílvia pulsava em mim. Abri o zíper da calça, enfiei a mão na calcinha e esfreguei a boceta molhada e o clitóris. Já estava quase gozando. Esfreguei forte e gozei rápido e intenso. Ofeguei um minuto pra recuperar o fôlego. O estômago roncou. Era noite de pizza, então abri o app da Pizza Heaven e apertei no botão de favorito. Enchi o copo de vinho de novo. Olhando a foto de Sílvia, mandei um texto: “Pensando em você e sorrindo”. Ela respondeu em um minuto: “Nossa, você é doce”.
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Uma sensação estranha me confundiu. O que era aquilo? Era calma. Calma de verdade. Quando foi a última vez que senti isso? A pergunta da Dra. Wilson voltou: o que o amor significa pra mim? Será que conhecer Sílvia me deu uma pista? Não podia negar o desejo sexual por ela, mas era só isso? Lembrei da ordem dela pra evitar sexo e guardei o desejo na fantasia. O interfone tocou alto. Ah, a pizza!
— Já desço, respondi.
Peguei trinta reais do prato perto da porta, o suficiente pra uma boa gorjeta, e fui até a entrada do prédio.
— Fica com o troco, falei, segurando a porta e pegando a pizza.
— Obrigada, respondeu a entregadora jovem e bonita, com um sorriso largo e simpático.
Por hábito, olhei o corpo dela, e por um segundo pensei em seduzi-la, mas a ideia passou rápido. Em vez de imaginar tirando a roupa dela, soltei a porta e fui pro elevador. Ela era bonita, jovem, em forma, provavelmente uma boa opção pra diversão. Por que não pedi o número? Seria sinal de que eu estava tentando mudar?
O cheiro forte de pepperoni e cogumelos na massa grossa subiu enquanto o elevador subia, ativando minha fome. Entrei no apartamento, coloquei a pizza na mesa da cozinha e abri a caixa. O aroma explodiu e me deixou no céu. Peguei um prato, servi uma fatia. O vapor subindo me avisou pra esperar, senão queimaria o céu da boca. Soprei, dei um gole no vinho e levei a fatia à boca. Mordei a ponta. Hmmm, perfeita.
Comi três fatias e virei o resto do vinho. Enchi o copo de novo, guardei a garrafa na geladeira junto com a pizza que sobrou. Pizza boa e vinho sempre me deixam contente, mas normalmente a ansiedade volta logo depois. Fiquei esperando a solidão aparecer, mas ela estava estranhamente quieta. Será que Sílvia a afastou?
Entrei na cama. Uma paz incomum me envolveu enquanto eu caía no sono.
Na quarta acordei, tomei banho e fui pra cozinha. Peguei cereal e lembrei da coincidência estranha: ter ficado sem leite ontem me levou até Sílvia. Será que a vida finalmente parou de me punir e me jogou uma corda salva-vidas? Despejei o leite e comi a melhor tigela de cereal que já tive.
Pensando no projeto 3D no estúdio, lembrei que a impressora solta fumaça ruim. As duas janelas do cômodo ajudariam a ventilar, e eu podia melhorar com uma mesa na frente da janela e um ventilador soprando pra fora. Me vesti com roupa confortável, bem larguinha. Fui até a Ikea, comprei uma mesa simples. Enquanto esperava pra retirar, caminhei até a loja de utilidades e comprei um ventilador de pedestal. Levei até o carro, depois voltei pra pegar a mesa. Em casa, montei a mesa e o ventilador, coloquei a impressora em cima.
Almocei rápido. O interfone tocou. Apertei o botão.
— Oi, pode trazer até o apartamento doze no segundo andar?
Abri a porta. Era a câmera e a pista. Chegou mais cedo! Abri as caixas e li o manual. Coloquei a cadeira do escritório no centro do quarto, montei a pista em volta pra gravar minha cabeça. Fiz uns testes e funcionou bem depois que coloquei os panos de veludo preto antiderrapante ao redor. Fui pro banheiro, lavei o rosto e escovei o cabelo. A vaidade me dizia pra passar maquiagem como sempre, dez ou quinze minutos, mas lembrei que Sílvia não ia sentir diferença, então deixei pra lá. Voltei pro estúdio, sentei na cadeira com o controle remoto. Joguei o cabelo pra trás dos ombros, olhei pra frente e apertei. Ri enquanto a câmera dava a volta na pista. O teste ficou bom, então preparei a foto final. Olhei a foto de Sílvia, segurei o sorriso e congelei a pose enquanto a câmera rodava. O resultado pareceu bom na tela. Editei o arquivo no laptop com o programa que veio com a impressora, copiei pro pendrive. Abri as duas janelas, liguei o ventilador e a impressora. Quando o painel mostrou “PRONTO”, coloquei o pendrive e selecionei “Sem cor”, já que Sílvia só ia tocar. Respirei fundo e apertei Imprimir.
Pulei no lugar enquanto o barulho da impressora começava e o rosto ia se formando devagar, enchendo de expectativa a ideia de entregar pra Sílvia. Quando terminou, tirei segurando a base e coloquei na mesa. Corri pro banheiro pegar um espelho de mão e comparei meu reflexo com o modelo. Estava bem parecido. Sentei na cama admirando o modelo e a pergunta da Dra. Wilson voltou: o que o amor significa pra mim? O desejo de dar um presente inesperado pra Sílvia era uma pista? Eu estava virando uma pessoa melhor?
Na sexta, fiquei inquieta na sala de espera da Dra. Wilson até ela me chamar.
— Pensou na minha pergunta, Mariana?
— Pensei, Dra. Wilson, mas ainda não tenho uma resposta de verdade.
— O que você chegou?
— Bom, talvez o amor seja fazer algo legal por alguém sem esperar nada em troca.
— Faz parte. O que te deu essa ideia?
Corri e sorri.
— Conheci alguém.
Ela preparou a caneta, inclinou a cabeça e me olhou.
— Ah? Me conta.
— Alguns dias atrás vi uma moça correndo pro ônibus com bengala branca. Ela me falou que tinha perdido o ônibus pro trabalho e ia chegar atrasada. Ofereci carona.
— O que te fez oferecer?
— Eu estava péssima depois da nossa sessão. Tão sozinha, sem saber o que fazer. Quando vi o problema dela, pensei: não tô fazendo nada hoje mesmo, por que não ajudar?
— Foi um gesto gentil.
— No caminho perguntei se ela era cega e ela confirmou. Fiquei impressionada com ela se virando sozinha.
— Ela é bonita?
— É.
Mostrei a foto de Sílvia.
— Bonitinha mesmo. Qual o nome?
— Sílvia.
— E aí?
— Deixei ela e fiquei olhando ela entrar no prédio.
— Só isso?
— Não, voltei pra buscá-la depois do trabalho.
— Por que fez isso? Ela não conseguiria voltar sozinha?
— Fiquei encantada. Queria ver ela de novo, mas não peguei o número de manhã.
— O que tocou em você nela?
— Fiquei impressionada que ela não deixou a cegueira impedir de continuar a vida. Tem um propósito e aprendeu a ser independente pra caralho. Eu me sinto inútil perto dela.
— Por que quer ver ela de novo?
Pensei.
— Talvez eu possa aprender com o exemplo dela?
— Então, você tem sentimentos sexuais por ela?
— Bom, você me conhece. Não consigo parar isso completamente. Mas sinto tudo diferente com ela.
— Como assim?
— Quero conhecer ela e deixar ela me conhecer antes de fazer qualquer coisa séria.
— Como isso é diferente pra você?
— Duas semanas atrás eu já estaria planejando como levar ela pra cama o mais rápido possível.
— E agora?
— Agora o quê?
— Quando você quer ela na sua cama?
— Caralho, você não enrola, né?
— Não, isso só perde tempo meu e dinheiro seu.
Tive que pensar de novo.
— Quando chegar a hora, se ela também quiser.
— Ela é só mais uma garota pra seduzir?
— Não! É diferente com ela. Ela é especial.
— Você acabou de conhecer. Como sabe tanto tão cedo?
— Não consigo provar, mas tenho um pressentimento. Você não pode acreditar em mim?
— Você tem histórico de se enganar e enganar os outros.
— Como faço pra te convencer que tô tentando mudar?
— Vai ter que mostrar com o tempo. Isso é uma reação passageira por causa dela ou você acredita que é uma mudança permanente?
— Espero que seja pra sempre. Você acha que pode ser?
— É possível se você realmente quiser deixar os velhos hábitos pra trás. Não vai ser fácil. Consegue?
— Tô me sentindo tão vazia que tô disposta a trabalhar nisso.
— É tudo que posso pedir. Agora, é essencial manter o relacionamento com Sílvia platônico por enquanto. Nas próximas semanas me mantém informada de como está indo. Se você me convencer que virou a página e puder me garantir que ela também quer, eu aprovo a intimidade.
— Tá bom. Ah, tem mais uma coisa.
— O quê?
— Fiz um modelo 3D do meu rosto pra dar pra ela da próxima vez que a vir. Mostrei a foto do modelo.
— Interessante. Por que isso?
— Ela pode tocar e vai ser como me ver. Tocar com os dedos é como as pessoas cegas veem o rosto dos outros.
— Faz sentido. Muito atencioso. Você realmente se apaixonou por ela. Isso é só fascínio?
— Acho que não. Espero que não.
— Bom, toma cuidado com ela agora.
— Vou tomar, prometo.
— O tempo acabou por hoje. Espero que as coisas deem certo pra você, Mariana. Mas não apresse. Ainda tem um longo caminho.
— Entendo. Até semana que vem.
— Ah, lembrei que na terça estou ocupada, mas acho que você está indo bem. Consegue esperar uma semana inteira?
— Vou tentar me comportar.
Ela riu.
— É melhor.
— Tchau, Dra. Wilson.
— Tchau.
Fui até o carro e sentei. Os pensamentos sobre Sílvia giravam. Será que ela pensava em mim do mesmo jeito que eu nela? Pensava em mim de algum jeito? Ia me querer como eu a queria? Mandei um texto: “Me liga quando puder”.
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